Como funciona a doação em vida com direito de uso do bem?

Quando você doa um imóvel para um filho em vida, passa a existir uma divisão jurídica do bem. Ela funciona assim:

Tudo isso é formalizado por meio de um documento em cartório (escritura pública de doação com reserva de usufruto) e registrado no Registro de Imóveis. É um processo legal, seguro e bastante utilizado no Brasil.

Qual imposto incide sobre a doação?

O imposto que incide sobre doações de bens é o imposto de herança (chamado tecnicamente de ITCMD — Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação). Ele é cobrado pelo estado, não pelo governo federal.

A alíquota varia muito de estado para estado:

O imposto é calculado sobre uma parte do valor do imóvel — não sobre o valor total, porque você ainda retém o direito de uso. Cada estado tem tabelas específicas para calcular essa divisão.


Quando faz sentido fazer a doação em vida?

Essa estratégia pode ser interessante em diferentes situações. Mas nem sempre é a melhor opção.

Faz sentido quando:

Quando pode não compensar:

Atenção: Em 2026, vários estados estão em processo de aumento das alíquotas do imposto de herança. Quem agir antes das mudanças ainda pode aproveitar as regras atuais — mais favoráveis em muitos estados.


Caso concreto: a decisão da Dona Helena

Helena tem 67 anos, mora em Belo Horizonte e tem dois filhos: Marcos, 42, e Flávia, 39. Ela é proprietária de um apartamento de três quartos no Savassi, avaliado em R$ 480 mil, onde mora há 25 anos. Também tem um apartamento menor em Contagem — R$ 180 mil — que ela aluga por R$ 900 por mês.

O imóvel de Contagem ela queria deixar para Marcos, que sempre a ajudou. Mas temia que, após sua morte, o processo de inventário gerasse conflito com Flávia — que esperaria ter direito à metade de tudo.

Com orientação jurídica, Helena fez o seguinte:

Passo 1: Ela doou o apartamento de Contagem para Marcos, com a reserva do direito de uso durante sua vida. O imposto de herança (ITCMD em Minas Gerais) foi calculado sobre a nua-propriedade — que corresponde a apenas uma parte do valor total do bem. A base de cálculo ficou em torno de R$ 108 mil. Com alíquota de 4%, o imposto foi de aproximadamente R$ 4.320.

Passo 2: Como Marcos já era o dono do imóvel, Helena continuou recebendo o aluguel normalmente — porque ela manteve o direito de uso. Esse direito inclui o recebimento de frutos, como aluguéis.

Passo 3: Ela atualizou o testamento para deixar claro que o apartamento de Contagem já havia sido antecipado para Marcos, e que o apartamento do Savassi ficaria para Flávia quando ela falecesse (por outro processo).

O resultado: O custo total da operação — imposto + documento em cartório + honorários do advogado — ficou em torno de R$ 12 mil. Se Marcos tivesse que esperar o inventário após a morte de Helena, o custo de todo o processo (com imposto de herança integral, advogado e cartório) seria estimado em mais de R$ 30 mil — fora o tempo e o desgaste emocional.


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Passo a passo: como fazer a doação com direito de uso do bem

1. Avalie o valor do imóvel e o imposto a pagar

Antes de qualquer coisa, calcule o custo real da operação. Um especialista vai identificar a base de cálculo correta e o imposto que incide no seu estado — considerando que apenas uma parte do valor é tributada (a nua-propriedade).

2. Defina quem será o donatário (quem vai receber)

Se você tem mais de um filho, pense nas consequências para cada um. A doação para um filho pode ser considerada “antecipação de herança” — o que pode influenciar a partilha futura dos outros bens. Conversa com um advogado especialista é essencial.

3. Reúna os documentos necessários

Para lavrar a escritura em cartório, você precisará de:

4. Pague o imposto antes da escritura

Na maioria dos estados, o imposto de herança precisa ser pago antes da lavratura da escritura de doação. O cálculo é feito com base no valor declarado do bem e na tabela estadual.

5. Lavre a escritura em cartório

O documento em cartório (escritura pública) é lavrado por um tabelião. Nele consta claramente que o doador mantém o direito de uso do bem durante sua vida. Ambas as partes precisam estar presentes ou representadas por procuração.

6. Registre no Cartório de Registro de Imóveis

A escritura precisa ser levada ao Cartório de Registro de Imóveis responsável pela área do imóvel. Só após o registro a doação tem validade perante terceiros.


Erros comuns — e como evitar

Erro 1: Não consultar um advogado antes de decidir

Muita gente decide fazer a doação depois de ler um artigo na internet — sem calcular o impacto real no patrimônio total. Um erro comum é esquecer que a doação pode ser considerada “adiantamento de herança” para fins de partilha futura.

Como evitar: Consulte um advogado especialista em planejamento patrimonial antes de qualquer decisão.

Erro 2: Não calcular o ganho de capital

Se o imóvel foi adquirido por um valor muito inferior ao valor atual, pode haver incidência de imposto sobre o ganho (a valorização) no momento da doação. Isso precisa ser calculado com antecedência.

Como evitar: Peça que o contador avalie o histórico do imóvel e simule o imposto de ganho de capital antes da doação.

Erro 3: Fazer a doação sem conversar com os outros filhos

Quando um filho recebe uma doação e os outros não, isso pode gerar conflito sério na hora do inventário — mesmo que seja completamente legal. A falta de comunicação é uma das principais fontes de litígio familiar.

Como evitar: Explique suas decisões para todos os herdeiros. Se necessário, faça a conversa com um mediador.

Erro 4: Confundir doação com venda

A doação é uma transferência gratuita. Se você “vender” o imóvel para o filho por um valor simbólico, isso pode ser questionado juridicamente e gerar autuação fiscal.

Como evitar: A doação deve ser declarada como tal. O imposto correto é o ITCMD, não o ITBI (imposto de transmissão entre vivos, que incide sobre compras e vendas).

Erro 5: Não atualizar o testamento

Depois da doação, o quadro patrimonial mudou. O testamento precisa ser revisado para refletir essa mudança e evitar contradições.

Como evitar: Sempre revise o testamento após qualquer transferência de bens.


Perguntas Frequentes

Se eu tiver o direito de uso do bem, posso alugar o imóvel e receber o aluguel?

Sim. O direito de usar o bem durante a vida inclui o direito de receber os “frutos” do bem — incluindo aluguéis. Você continua recebendo normalmente até o fim da sua vida.

Meu filho pode vender o imóvel que eu doei antes de eu morrer?

Não pode — pelo menos não sem a sua autorização. Enquanto o direito de uso existir, o bem não pode ser alienado (vendido, hipotecado) sem a concordância do titular desse direito. Você mantém esse poder de controle.

Quanto custa o documento em cartório para fazer a doação?

Os custos variam por estado e por valor do imóvel. Em geral, a escritura de doação custa entre R$ 1.500 e R$ 5.000, mais o registro no Cartório de Imóveis (que pode variar de R$ 500 a R$ 2.000). Fora o imposto de herança (ITCMD), que é calculado separadamente.

A doação em vida é melhor do que fazer um testamento?

Cada instrumento tem um propósito. A doação transfere o bem ainda em vida, com custo imediato, mas elimina a necessidade de inventário para aquele bem. O testamento só produz efeito após a morte e ainda exige inventário. Em muitos casos, usar os dois instrumentos juntos é a estratégia mais eficiente.

O que acontece se eu me separar do meu cônjuge após fazer a doação?

Depende do regime de casamento e de como o imóvel foi adquirido. Em alguns regimes, o cônjuge pode ter direito a parte do bem doado. Por isso, é fundamental consultar um advogado antes de fazer a doação — especialmente se o imóvel foi adquirido durante o casamento.


Conclusão

Passar um imóvel para um filho ainda em vida pode ser uma decisão inteligente — financeiramente e emocionalmente. Com o direito de uso garantido, você não perde o controle do bem. E em muitos casos, o custo total da operação é menor do que o que seus filhos pagariam no inventário.

Mas cada situação é única. O valor do imposto, o impacto na partilha futura e os custos de cartório variam dependendo do estado, do imóvel e da composição familiar. O mais importante é tomar essa decisão com informação — não por impulso.

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